Bulimia: quando a comida deixa de ser apenas comida

Quando falamos em bulimia, muitas vezes a primeira coisa que vem à cabeça é a relação com a comida e com o peso.

Mas, na prática clínica, existe muito mais acontecendo por trás disso.

Existe culpa. Existe vergonha. Existe medo de engordar. Existe uma cobrança enorme com o próprio corpo. E, muitas vezes, existe uma sensação de perda de controle que pode ser muito difícil de explicar para quem está de fora.

A pessoa pode pensar:
“Por que eu faço isso se depois vou me sentir tão mal?”

E essa pergunta é importante.

Porque a bulimia não acontece simplesmente porque alguém “não tem controle” sobre a comida.

Existe um ciclo de pensamentos, emoções e comportamentos que vai se fortalecendo com o tempo.

Como esse ciclo pode começar?

Às vezes, tudo começa com uma preocupação muito grande com o corpo.

A pessoa se olha no espelho e não gosta do que vê. Sente que precisa emagrecer. Começa a estabelecer regras muito rígidas para a alimentação.

“Isso eu não posso comer.”

“Preciso me controlar.”

“Hoje vou compensar.”

“Se eu comer isso, vou engordar.”

Esses pensamentos podem trazer ansiedade e uma necessidade cada vez maior de controlar a alimentação.

Só que quanto mais rígido fica esse controle, maior pode ser o sofrimento.

Em determinado momento, a pessoa pode sentir que não consegue mais manter aquelas regras e acaba comendo de uma maneira que depois interpreta como uma perda de controle.

E então vem a culpa.

“Eu estraguei tudo.”

“Não tenho força de vontade.”

“Não consigo me controlar.”

“Agora preciso consertar o que fiz.”

E é justamente aí que o ciclo pode continuar.

A culpa também faz parte do problema

Uma coisa importante na bulimia é entender que a culpa não aparece apenas depois do comportamento.

Ela pode alimentar o próximo episódio.

A pessoa se culpa, sente vergonha, promete que nunca mais vai acontecer e tenta recuperar o controle de uma maneira ainda mais rígida.

Por alguns momentos, pode parecer que está funcionando.

Mas o sofrimento continua.

E, quando o ciclo se repete, a pessoa pode começar a acreditar que o problema é ela.

“Eu sou fraca.”
“Eu não tenho disciplina.”
“Eu não consigo ser como as outras pessoas.”

Na TCC, nós olhamos justamente para esses pensamentos.

Não para dizer simplesmente se eles estão certos ou errados, mas para entender como eles influenciam aquilo que a pessoa sente e faz.

E o que a TCC procura compreender?

Na terapia cognitivo-comportamental, podemos observar uma situação e perguntar:

O que aconteceu?
O que passou pela sua cabeça naquele momento?
O que você sentiu?
E o que fez depois?

Isso ajuda a pessoa a perceber que existe uma sequência.

Um pensamento pode aumentar a ansiedade.

A ansiedade pode levar a determinado comportamento.

Depois desse comportamento, podem aparecer culpa, vergonha ou medo.

E esses sentimentos podem alimentar novos pensamentos e novos comportamentos.

Quando conseguimos enxergar esse ciclo, começamos a trabalhar nele.

Não é apenas sobre comida

Talvez essa seja uma das coisas mais importantes de entender.

A bulimia não precisa ser vista apenas como um problema relacionado à alimentação.

É preciso olhar para a relação que a pessoa construiu com o próprio corpo, com a comida, com o controle e, muitas vezes, com o próprio valor.

Quando a autoestima fica muito ligada à aparência ou ao peso, qualquer mudança no corpo pode ser vivida como se fosse uma ameaça enorme.

E a pessoa pode começar a acreditar que precisa ter determinado corpo para ser aceita, desejada, bonita, competente ou até mesmo para se sentir bem consigo mesma.

Por isso, o tratamento não deve ser apenas sobre “aprender a comer melhor”.

É também sobre compreender pensamentos, emoções, crenças e comportamentos que estão mantendo o sofrimento.

É possível sair desse ciclo

A bulimia é um transtorno alimentar sério e merece cuidado profissional.

Mas procurar ajuda não significa que a pessoa fracassou.

Pelo contrário.

Significa reconhecer que ela está presa em um ciclo que talvez sozinha esteja sendo muito difícil interromper.

Na terapia, vamos construindo esse caminho aos poucos: entendendo o que acontece, identificando os pensamentos que aparecem, trabalhando a relação com o corpo e com a alimentação e buscando formas mais saudáveis de lidar com emoções e situações difíceis.

Sem julgamento.

Sem “é só ter força de vontade”.

Sem transformar comida em inimiga.

E, principalmente, sem fazer a pessoa acreditar que ela é o problema.

Existe um comportamento que precisa ser compreendido e tratado. E existe uma pessoa por trás dele que merece ser cuidada.

Se você se reconheceu neste texto, talvez esse seja um bom momento para procurar ajuda profissional. Você não precisa esperar que o sofrimento fique ainda maior para começar a cuidar dele.